Novo secretário de esporte tem pouco a mostrar nos 100 primeiros dias de governo

01 de abril de 2019 ● POR Alessandro Lucchetti

Transcorridos quase cem dias desde a posse do novo presidente da República, Jair Bolsonaro, já é possível elaborarmos um balanço das ações do governo no âmbito esportivo. De antemão, podemos afirmar que o capitão reformado não está traindo flagrantemente suas promessas de campanha na esfera do esporte: ele praticamente não fez nenhuma.

Embora tenha se formado na Escola de Educação Física do Exército (EsEFEx) e se notabilizado pelo bom desempenho atlético, sobretudo em provas de pentatlo militar e atletismo, Bolsonaro praticamente ignorou o esporte em seu plano de governo. O tema é abordado incidentalmente no tópico referente à saúde. Num capítulo intitulado “Prevenir é melhor e mais barato”, o candidato do PSL citava a integração do esporte ao programa Saúde da Família. “Outro exemplo será a inclusão dos profissionais de Educação Física no programa Saúde da Família, com o objetivo de ativar as academias ao ar livre como meio de combater o sedentarismo e a obesidade e suas graves consequências à população, assim como o AVC e infarto do miocárdio”, propõe.

Ainda antes de ser nomeado ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM-RS) já adiantava que o esporte não seria prioridade do novo governo. “O Brasil precisa se dar conta de que qualquer governo que assumiria no ano que vem, e vai ser o nosso, terá de arrumar R$ 140 bilhões para cobrir o déficit. Isso não se faz sem ter prioridades claras. As prioridades do governo do Jair são segurança pública, saúde e educação básica”.

Logo de cara, os novos ocupantes do poder reduziram o status do esporte. O Ministério do Esporte, criado no primeiro dia do primeiro mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP), foi extinto. Em seu lugar, foi criada a Secretaria Especial do Esporte, abrigada no organograma do Ministério da Cidadania.

O último ministro do Esporte, Leandro Cruz, avalia que essa alteração faz diferença. “Já fui secretário (Secretário Nacional de Esporte, Educação, Lazer e Inclusão Social) e sei que não é a mesma coisa. A capacidade de interlocução é outra. Ministro fala com ministro, com o presidente da República, não com secretários e editores”, disse Cruz à Folha de S. Paulo.

Osmar Terra, o ministro da Cidadania, nomeou o general da reserva Marco Aurélio Vieira como secretário especial do esporte. O militar não é um neófito no âmbito esportivo – ainda no governo Dilma Rousseff, fora escolhido como diretor-executivo de operações dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016. Professor de Educação Física, Vieira é paraquedista, foi técnico de pentatlo moderno, atleta de natação e polo aquático. Na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) foi considerado um dos melhores atletas de 1973.

A ex-jogadora de basquete Magic Paula, diretora-presidente da ONG Atletas pelo Brasil, reuniu-se, ao lado de Hortência e do ex-pivô Pipoka, com Vieira em Brasília, no final de fevereiro. “O que sentimos na prática é que o secretário não tem autonomia sequer para montar sua equipe. Minha impressão é que ele tem uma boa visão global do esporte no país. Precisamos saber como serão os próximos passos. Ainda não consigo enxergar nada nesta gestão nestes primeiros cem dias”, disse a dirigente, em entrevista ao Portal da Educação Física.

O Portal solicitou entrevista a Marco Aurélio, mas não foi atendido. O secretário manifesta disposição para reverter uma das maldades perpetradas pela gestão Michel Temer, o severo corte no orçamento do programa Bolsa Atleta, reduzido de R$ 137 milhões para R$ 82 milhões no último dia do mandato anterior. “Um estudo aprofundado do programa está sendo realizado para garantir a democratização do apoio do Governo Federal a todos os atletas brasileiros, das categorias de base até a elite do esporte nacional, a Bolsa Pódio. O objetivo é racionalizar a distribuição de recursos de forma equitativa, sem descuidar da preparação para os Jogos de Tóquio/2020. O estudo também inclui a avaliação sobre a necessidade de recomposição orçamentária do programa, que perdeu recursos nos últimos anos”, afirma nota enviada pelo Ministério da Cidadania.

Acompanhando as notas divulgadas pela Secretaria Especial do Esporte, percebe-se que Vieira tem procurado capitalizar em cima de inaugurações de obras que foram orçadas e construídas, em sua maior parte, em gestões anteriores – e apenas este ano concluídas. É o caso dos Centros de Iniciação ao Esporte, que fazem parte de projetos envolvidos no tão criticado Plano de Aceleração do Crescimento. Os CIEs foram lançados durante o governo Dilma Rousseff, no período em que o ministro era Aldo Rebelo (então no PC do B).

Os CIEs são um dos principais legados olímpicos da Rio 2016. Na época, foram selecionados 263 municípios para receber 285 unidades dos centros. Hoje, há 132 contratos ativos, no valor de R$ 471, 3 milhões. Dezoito unidades já foram inauguradas.

O último CIE inaugurado, o de Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, tem capacidade para atender 13 modalidades olímpicas, seis paraolímpicas e uma não-olímpica.

Vieira tem recebido com frequência interlocutores da esfera esportiva, como a senadora Leila Barros, ex-jogadora de vôlei, e personalidades como Flavio Canto, criador da ONG Reação, responsável pela revelação da campeã olímpica de judô Rafaela Silva. Uma das ideias aventadas por Vieira é movimentar parte dos 12 milhões de jovens “Nem-nem”, aqueles que não trabalham nem estudam, com o esporte. A ideia é utilizar programas como o Segundo Tempo, também criado e desenvolvido ao longo de gestões de ministros do Esporte ligados ao PC do B.

O secretário de Esportes marcou presença também em Roraima, onde manifestou a atenção de estender programas socioesportivos a refugiados venezuelanos.

Na opinião de Paula, a Secretaria de Esporte deve deixar de priorizar os atletas de alto rendimento, voltando-se mais para o esporte de base e educacional. “O esporte perdeu o peso com a redução de status, de Ministério para secretaria. Mas é possível trabalhar com essa estrutura. Estamos monitorando a secretaria. Acho que já daria para ter feito alguma coisa nestes primeiros meses”, afirma a ex-armadora, que fez um trabalho breve como Secretária Nacional de Alto rendimento do Ministério do Esporte e reformulou o Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa do Ibirapuera durante a gestão de Marta Suplicy na prefeitura de São Paulo (2001 a 2004).