Presidente do CREF 6 admite: fiscalizar exercício da profissão é enxugar gelo

26 de junho de 2017 ● POR Alessandro Lucchetti

Não são raras as críticas formuladas por profissionais de Educação Física à atuação dos Conselhos Regionais, os CREFs. Muitos profissionais avaliam que esses órgãos pouco fazem além de lhes cobrar a anuidade. Enquanto isso, incomodam-se ao ver, em academias, “charlatões” ou estagiários atuando como se professores fossem.

A fim de saber como os representantes dos conselhos se defendem dessas críticas, conversamos com Claudio Boschi, presidente do CREF 6 (Minas Gerais) e Coordenador do Colégio dos Presidentes do Sistema CONFEF/CREFs. É claro que a discussão poderá ser enriquecida com contribuições (e mais ataques) dos nossos leitores.

Antes de entrevistarmos Boschi, conversamos com Fernando Mascarenhas, autor de uma crítica bem embasada à atuação dos conselhos. O texto já é bem conhecido por grande parte da comunidade http://blogdomasca.blogspot.com.br/2013/08/mau-conselho.html. No entanto, Mascarenhas optou por não participar do debate agora, alegando que seu texto já é antigo (de 2013), e que não tem se debruçado sobre a questão ultimamente.

Por ora ficamos, então, apenas com a visão de Boschi acerca da questão. “O modelo de conselhos profissionais foi criado no bojo da implantação da CLT. A ideia consiste na criação de regras de atuação, em determinadas profissões, pelos próprios profissionais; os conselhos nasceram para que tornassem exato o exercício profissional”.

Boschi admite que a dimensão do trabalho fiscalizatório é inferior à demanda. E cita números bastante eloquentes. Com população de 220 milhões, o Brasil é o país com o maior número de academias por habitante: 36 mil. Os Estados Unidos, líder mundial em números absolutos no tocante a academias (42 mil), fica atrás nessa relação. Sua população é de 300 milhões de habitantes.

“Minas tem 853 municípios. Há uma cidade mineira com 20 mil habitantes que tem três duplas de fiscais. Hoje, com toda a facilidade proporcionada por celulares, whatsapp e mídias sociais, se os fiscais chegam a uma academia, várias delas, situadas na mesma região, fecham as portas e só reabrem depois de dois ou três dias, o que constitui um grande obstáculo para a fiscalização”.

Boschi salienta que as redes sociais também operam a favor da fiscalização. Denúncias são recebidas, o que contribui para o trabalho dos fiscais. O Coordenador do Colégio dos Presidentes emprega outro argumento em defesa de sua posição. Em sua opinião, os professores de educação física não têm ainda a cultura da denúncia. “Os médicos não têm o hábito de se esconder, não temem represálias, e denunciam. Eles formam uma classe de fiscais de seus pares”.

Cabe ainda lembrar que, até meados dos anos 90, os Conselhos recebiam recursos do Ministério do Trabalho para a atividade fiscalizatória. Na gestão presidencial de Fernando Henrique Cardoso (95 a 2002), essa verba foi suprimida.

Os processos éticos/disciplinares se inserem num ritual demorado, com duração, em média, de seis a 20 meses, o que retarda o poder detonado pela fiscalização. “Não poderemos nunca nos escudar em nenhum desses argumentos para não exercer a devida fiscalização, mas admito que é um trabalho que, por sua dimensão, equivale a enxugar gelo”, conclui Boschi.