Qual o impacto da reforma da Previdência entre os profissionais da Educação Física?

22 de fevereiro de 2019 ● POR Alessandro Lucchetti

A proposta de reforma da Previdência Social, apresentada nesta semana pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, foi recebida com indignação por muitos trabalhadores, sindicalistas e outros setores da sociedade civil. Para se ter uma ideia, até mesmo o nada radical Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo, considerou “desumanos” trechos do documento, como a redução dos valores pagos a título de Benefício de Prestação Continuada. Ainda assim, a proposta formulada pela equipe comandada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, foi elogiada por muitos economistas e empresários, que enxergam na redução do rombo da Previdência a correção de rota necessária para o Brasil voltar a crescer. Sem entrar no mérito dessa discussão, o Portal da Educação Física conversou com Marco Lopes, proprietário do FisioFit Sênior, plataforma voltada para o oferecimento de atividade física à terceira idade. Formado em Educação Física e Fisioterapia, com especialização em Gerontologia, o empresário aponta para a grandeza da missão que aguarda os profissionais de Educação Física nesta quadra da vida nacional: a de preparar os futuros sexagenários, septuagenários e octogenários brasileiros para se manterem ativos e na labuta a fim de que possam completar os 40 anos de contribuição para o INSS (caso queiram ter aposentadoria no valor ingegral), que serão obrigatórios caso a Proposta de Emenda à Constituição da reforma seja aprovada.


“Toda a área da saúde, na qual incluo os profissionais de Educação Física devem ter consciência de que a saúde é o principal ativo dos profissionais que queiram continuar tocando a vida trabalhando. Nós devemos nos engajar, enquanto profissionais. É necessário entender o momento do país. É preciso educar as pessoas para a necessidade de cuidar da saúde, com atividade física”.


Lopes pondera que é comum ver trabalhadores já aposentados dando continuidade a uma vida economicamente ativa. Algumas vezes por opção, outras por necessidade, considerando-se o baixo valor médio das aposentadorias do regime comum de Previdência Pública. “Muita gente se aposentou aos 54, 55 anos. Mas a expectativa de vida está aumentando. As pessoas perceberam que podem viver até os 78, 80 anos, e não querem ficar paradas”. A diferença é que, se for vitorioso no Congresso o projeto de Guedes, esse prolongamento da vida profissional será impositivo. “Nos Estados Unidos, mais de 50% das startups foram abertas por pessoas acima dos 50 anos de idade. Esse tipo de movimento é abordado pela plataforma Mature Jobs, por exemplo”, diz Lopes.


O grande adversário dessa força de trabalho, na opinião de Lopes, é o sedentarismo. “Praticar atividade física desde já é benéfico, é fundamental hoje”.


Um outro aspecto importante nessa equação não escapa ao especialista: o próprio profissional de Educação Física terá que completar seus  40 anos de contribuição. Mas onde estão os personal trainers com cabelos encanecidos e rugas?


“As empresas vão querer entender esse profissional mais velho. Eles vão ter que preparar seus currículos e enviá-los quando estiverem se aproximando da idade de se aposentar ou vão poder continuar nas empresas?”.
Lopes acredita que a presença de profissionais mais velhos nas academias será amplamente benéfica para essas empresas. “O perfil do cliente vai mudar. Acho que um profissional de 60, 65 anos, vai criar uma boa empatia com os clientes dessa mesma faixa etária. Ele vai ter uma compreensão ainda maior das necessidades do consumidor desses serviços. Além disso, a mistura de pessoas de diversas idades numa mesma academia propicia um clima melhor, mais amistoso”.


É chegada a hora, na avaliação de Lopes, de uma mudança do marketing das academias, para buscar esse público. A reflexão sobre os impactos da reforma da Previdência, no entanto, vão muito mais além.
“O CREF, os sindicatos e o próprio Portal da Educação Física devem conduzir debates e contribuir para educar nossos profissionais da Educação Física. Como estamos planejando nosso futuro? Como gerir nossas carreiras? Como faremos para ampliar nossa vida laboral?”, pergunta Lopes. São reflexões que podemos começar a fazer hoje mesmo, enquanto corremos no parque ou na esteira de uma academia.